Oi gente!!! para celebrarmos o Dia do Índio, resolvi trazer uma discussão sobre a contribuição das "raças" entre elas a indígena, à formação do povo brasileiro e de como a genética se insere nesse tipo de estudo!!
Genética e "mistura racial" no Brasil
A genética experimentou uma notável expansão no país a partir da década de 50. Contribuiu para tal a consolidação do sistema universitário brasileiro e o treinamento de um grupo de jovens cientistas em universidades e laboratórios no exterior que, ao retornarem ao país, montaram e impulsionaram diversos grupos de pesquisa (Santos 1996).
Nas pesquisas em genética de populações humanas na segunda metade do século XX, uma vertente que recebeu ampla atenção no Brasil estava voltada para os estudos sobre dinâmica gênica em situações de "mistura racial"3. Segundo Sans (2000), a América Latina é uma das regiões mais investigadas em todo o mundo no que diz respeito a essa linha de pesquisa, notando-se uma proeminência da produção de geneticistas brasileiros nesse campo. Em um influente trabalho na década de 60, os geneticistas Francisco M. Salzano e Newton Freire-Maia salientaram que as populações brasileiras apresentam "uma oportunidade ímpar para o estudo de problemas dos mais fascinantes e complexos" (1967:1) (ver, também, Freire-Maia 1983; Salzano e Bortolini 2002). Seus estudos apontaram que
As populações brasileiras caracterizam-se, em geral, por apresentarem grande heterogeneidade genética [...]. A heterogeneidade deriva da contribuição que lhe deram os seus grupos raciais formadores [...]. São, por isso, nossas populações um ótimo material para uma série de estudos sobre comparações intra e interétnicas, bem como sobre os efeitos da mestiçagem (Salzano e Freire-Maia 1967:157).
Nas décadas de 60 e 70, foi realizada uma grande quantidade de estudos sobre "mistura racial" no Brasil. Fundamentavam-se na análise de marcadores genéticos clássicos, como, por exemplo, no sistema de grupos sangüíneo Rh, Diego e proteínas séricas Gm (gamaglobulinas).
Uma vez fornecido o contexto histórico, torna-se possível situar Retrato Molecular do Brasil no bojo da ciência brasileira das últimas décadas. Pode-se dizer que é um dos capítulos mais recentes de uma vertente de investigação proeminente na genética de populações humanas que floresceu no Brasil na segunda metade do século XX. Para além disso, a pesquisa de Pena e associados, juntamente com outros estudos genéticos (ver Salzano e Bortolini 2002), inova e amplia as possibilidades de análise mediante a utilização do novo arsenal técnico oferecido pela biologia molecular. Por meio do seqüenciamento de porções do mtDNA e do cromossomo Y, os geneticistas buscaram apresentar um panorama comparativo da distribuição geográfica e dos padrões de ancestralidade das matrilinhagens e patrilinhagens da população brasileira. Ecoando a extensa literatura em genética de populações no Brasil (incluindo uma continuidade discursiva que coloca a composição da população brasileira como "ímpar e fascinante" devido ao alto grau de miscigenação), o intuito de Retrato Molecular do Brasil é destrinchar, do ponto de vista biológico, a história da formação do povo brasileiro, enfatizando a realidade sociodemográfica do país no tocante à mestiçagem.
Há um outro objetivo presente nos escritos dos geneticistas, que é o de desenvolver um diálogo com as ciências sociais. Parece-nos que Sérgio Pena e colaboradores utilizaram uma estratégia que se mostrou bem-sucedida e que findou por atrair considerável atenção da parte de cientistas sociais, algo incomum em se tratando de resultados de pesquisas em genética/biologia. Tal estratégia envolveu a referência a alguns autores clássicos da antropologia, sociologia e história no Brasil, como Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, de modo a colocar a pesquisa genética como também potencialmente geradora de uma "interpretação do Brasil". Isto é, a biologia em estreito diálogo ou mesmo comprovando teses oriundas das ciências sociais e humanas. Não por acaso, os geneticistas, ao denominarem a pesquisa como Retrato Molecular do Brasil, parafraseiam o clássico livro de Paulo Prado Retrato do Brasil, publicado em 19284.
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